1ª
Parte
Capítulo
1
Os
passos ainda cansados pareciam fortes e determinados a chegar a algum lugar. O
problema talvez fosse qual seria esse lugar. O sol escaldante do deserto chega
a cinqüenta graus Celsius no meio dia e devo dizer que já havia passado uma
hora desde essa crucial hora no deserto. O andarilho solitário não tinha noção
da leitura da temperatura, muito menos se for posta em Celsius. Era a
primavera de 1191, e a região era o oriente médio, estava a dois dias da recém
conquistada cidade de São João de Acre, cidade esta que margeava com o mar
mediterrâneo e se avizinhava com as cidades de Sidon, ao norte, e Jaffa, ao
sul, aliás, seguindo mais ao sul encontrava-se a muçulmana Jerusalém, dominada por
Saladino fazia mais ou menos quatro anos. Fora em 1187 que as tropas de
Saladino entraram em Jerusalém gritando “Alá o Akbar”, que significa “Deus é
Grande”, e assim tomaram a cidade dos cristãos. O triunfo do Islã ainda era
recente e latente nas mentes cristãs. A lembrança da perda de sua tão amada
conquista queimava tanto quanto o sol queimava a pele do andarilho. Era mais do
que a hora de se fazer alguma coisa a respeito...
O
andarilho vestia uma pesada e desgastada armadura. Na cabeça usava um elmo
simples com proteção nasal muito usado em combates a pé, no corpo usava colete
de cota de malha e por cima da armadura tinha uma túnica branca com uma enorme
cruz vermelha pintada. Usava luvas e botas metálicas que pesavam a cada passo
na areia fofa do deserto. No braço esquerdo tinha um escudo cujo formato se
aproximava do que poderia se chamar de triangulo só que invertido, contudo era
mais largo na cúspide, o tipo do escudo indicava que o andarilho havia perdido
seu cavalo na batalha, se fosse retangular o escudo seria de um combatente a
pé, mas não era o caso. Na mão direita levava uma espada longa, comum na época
da cavalaria, mortal ao longo de muitos anos. Durante séculos a cavalaria foi a
arma mais poderosa do exercito europeu, sendo batida apenas no século XIII,
quando o arco longo surgiu e passou a perfurar a “impenetrável” armadura da
cavalaria.
Todavia,
ainda nos tempos da “invencibilidade” da cavalaria, este andarilho, quase
moribundo, não mostrava soberania, muito menos invulnerabilidade, pelo
contrário, estava fraco, cansado. Seus passos eram lerdos e chegavam a ser
arrastados por entre as areias escaldantes do deserto. Vez e outra tentava
levantar um pouco mais a perna, talvez para sentir se ainda estavam lá, a horas
não as sentiam. Duas horas depois o sol ainda ardia nas feridas abertas e o
jeito foi largar os pedaços pelo deserto se objetivo era chegar em Acre. O primeiro a ficar
foi o elmo, ele estava pesando e abafando a cabeça, quando retirou uma brisa
soprou em sua cabeça, foi refrescante, mas apenas por alguns segundos, pois
logo depois o calor veio a incidir diretamente no seu rosto... Sobre sua
cabeça.
-
Que Deus me perdoe, mas este é um inferno na terra! Morri na batalha e não me
dei conta? – disse ele caindo de joelhos no chão
Seu
rosto estava suado e dos seus curtos fios de cabelo escorriam gotas salgadas.
Lambeu os lábios sedento por água e sentiu o sal intenso que brotava de si.
Seus olhos castanhos escuros tentavam enxergar o horizonte. Nada, nada além de
muita areia e calor. Balançou a cabeça como quem volta a si, não queria se dar
a oportunidade de delirar vendo miragens, afinal já tinha ouvido muitas
histórias sobre o deserto e elas não eram muito animadoras. Tentou levantar,
mas não conseguiu. As pernas pesavam. Guardou a espada na bainha e atirou o
escudo o mais longe que pôde. Num momento de cólera se ergueu. Não seria
vencido pelo deserto.
Anoiteceu
depois de muito caminhar. Agradeceu a Deus por não ter jogado fora a armadura, pois
o frio no deserto era intenso. O dia era tão quente assim como a noite era
fria. Num gesto sem pensar baixou a cabeça e olhou para as mãos, estavam
cobertas com as luvas metálicas, no entanto ainda sentia frio, talvez fosse a
fraqueza, talvez a morte chegando. Ele cruzou os braços e voltou a olhar para o
horizonte. Avançou noite adentro durante duas horas até que sem perceber se
deixou cair na areia, agora fria, e caiu num sono pesado que o carregara até o
amanhecer, quando sol mais uma vez veio mostrar sua coroa quente e reluzente.
Abriu
os olhos com dificuldade, a areia enchia sua face e invadia seus olhos, lambeu
os lábios e instantaneamente cuspiu um bolo de areia, por uns segundos se
perdeu em vagos pensamentos e pensou em desistir de continuar andando. Entretanto
o passado bateu em sua mente, por causa dele quis ficar e morrer, mas também
por causa dele quis levantar e chegar em Acre. Ainda tinha coisas para fazer e coisas para
buscar.